As especialidades médicas




        As especialidades na área médica surgiram em função da evolução da medicina e passaram a exigir a criação de novos nomes. Nem sempre as denominações escolhidas foram as mais apropriadas. Uma vez aceitas, entretanto, desvinculam-se de suas origens, de suas raízes etimológicas, adquirem autonomia semântica e se revestem de uma conotação que lhes garante a sobrevivência. Muitas especialidades têm denominação insuficiente para indicar todo o seu campo de atuação.

        A gastroenterologia, por exemplo, não se restringe ao estômago e ao intestino, como o nome sugere; abrange outros órgãos do aparelho digestivo, como o esôfago, fígado, pâncreas, vias biliares.

        A cardiologia não cuida apenas do coração; do contrário os cardiologistas não poderiam tratar a hipertensão arterial.

        Os proctologistas, para não deixar dúvida quanto aos limites de seu feudo, decidiram antepor o colo à antiga denominação de sua especialidade, que passou a chamar-se coloproctologia.

        Os otorrinolaringologistas, apesar da extensão quilométrica do nome de sua especialidade, costumam acrescentar um subtítulo explicativo: "Doenças do nariz, ouvido e garganta", como a dizer quelárygx, em grego, além de laringe, quer dizer também garganta.

        Os ginecologistas, que em sua maioria também fazem partos, preferem manter acopladas as denominações de ginecologia e obstetrícia, como uma fruta inconha. Alguns abreviam para gineco-obstetrícia, de muito mau gosto.

        O sistema urinário deu origem a uma curiosa dicotomia: quando a abordagem é clínica, a especialidade se chama nefrologia; quando exercida por cirurgião, urologia, como se o clínico não tratasse uma cistite ou o cirurgião não operasse o rim.

        Anestesista passou a ser simplesmente aquele que aplica a anestesia. Para elevar o status da especialidade e do especialista ao nível dos demais, foi necessário acrescentar o lógos grego, com sua magia - anestesiologia e, consequentemente, anestesiologista.

        O mesmo se deu em relação aos oculistas, que trocaram o latim pelo grego e passaram a oftalmologistas.

        Os dentistas não fizeram por menos; os que se prezam e têm diplomas na parede passaram a ser odontólogos.

        Os radiologistas já não se contentam com a antiga denominação vinculada aos ultrapassados raios-X e estão propondo um novo nome para a especialidade – imaginologia - para incluir outros métodos de imagem como a ultrassonografia, a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética. É óbvio, no entanto, que há outros tipos de imagem que pertencem a outras áreas, como a medicina nuclear e a endoscopia.

        Os pediatras e psiquiatras foram mais modestos. Dispensaram a marca da erudição e preferiram ser chamados de iatrós, no sentido clássico da práxis médica: aquele que trata, que cuida, que medica.

        Os geriatras seguiram o exemplo dos pediatras (afinal são os dois extremos da vida) e deixaram gerontologia para o ramo das ciências médicas que estuda o envelhecimento, embora em alguns países só se empregue gerontologia em ambos os sentidos.

        Algumas especialidades mais novas ainda não fizeram sua opção definitiva. É o caso da patologia clínica, para a qual têm sido sugeridas outras denominações, como medicina laboratorial oubiopatologia. O especialista em patologia clínica (patologista clínico) desfruta, a meu ver, de uma posição invejável; a de alguém cujo saber se estende da patologia à clínica; um misto de cientista e médico, capacitado a confirmar ou modificar uma hipótese diagnóstica. A troca do nome da especialidade para medicina laboratorial deixaria o especialista em desvantagem, que passaria a ser simplesmente médico laboratorista, ou então deveria ser chamado por um nome de mais alta hierarquia, como laboratoriologista (pobres das secretárias!) Biopatologia médica seria uma denominação correta e expressiva, não fosse o curso de biomedicina e biomédico, como sabemos, não é médico.  Biopatologista sugere antes uma especialização de biólogo. Enquanto aguardamos a decisão dos interessados, já se observa uma tendência para a opção por medicina laboratorial.
        Ultimamente tem sido empregada a expressão medicina diagnóstica englobando todos os exames auxiliares, como se não existisse o diagnóstico clínico e o médico dependesse  unicamente destes exames no exercício de sua profissão. 


Comente:

Nenhum comentário