Esportistas aderem aos treinos por e-mail




No dia em que completou 38 anos, em 2 de outubro de 2007, o programador de computador Alexandre Collatto decidiu correr os 42 km da Maratona de Porto Alegre, onde mora. O problema é que as corridas dele não passavam dos 2,4 km. Sem tempo, a solução foi recorrer à tecnologia.

A preparação física foi feita à distância e Collatto recebeu todos os treinos por e-mail, uma tendência que vem ganhando força no meio do esporte. O professor do atleta mora no Rio de Janeiro e os dois nunca se viram.

O programador de computador completou a prova após quase oito meses de dedicação intensa ao treinamento, seguindo à risca as planilhas que o professor de educação física Marcelo Nissenbaum mandava pelo computador.

"Cheguei com o tempo de 3h10min10s. Apenas 49min20s a mais que o vencedor da prova. Sou um atleta amador, mas tive um treinamento de atleta profissional", afirma Collatto.

Por falta de tempo ou até pela vontade de não ter uma rotina engessada, muita gente tem buscado o treinamento on-line, oferecido por assessorias esportivas. O preço pode ser um atrativo. Se um personal trainner cobra R$ 80 por hora, esse pode ser o valor de um treinamento mensal via internet, calculam os profissionais do ramo. Alexandre Collatto conheceu Nissenbaum por meio de um site de mercado financeiro, onde o técnico coordena a parte de saúde.

 Fidelidade

"O sucesso do treino on-line depende da sinceridade e da fidelidade do cliente. A gente passa e pressupõe que ele está fazendo. Tem que confiar, senão fica um treino exotérico", brinca Nissenbaum, que foi atleta e se formou em administração de empresas para tocar a própria assessoria esportiva. "Nunca vi o Alexandre. Ele correu a maratona para 3h10. Chegou em um nível avançado", diz, elogiando o atleta de Porto de Alegre.

Atualmente, o treinador tem cerca de 80 pessoas em sua rede. Passa planilhas para cada uma de acordo com a necessidade e os objetivos – existe o nível iniciante, avançado e o intermediário. Antes de o programa começar, é preciso responder a um questionário com centenas de perguntas que falam sobre hábitos alimentares, esportivos, questões de saúde etc. "Passo o treino e oriento todo mundo por e-mail. Se alguém tem dor, recomendo procurar um ortopedista, por exemplo", afirma o técnico.

Os especialistas advertem que, para o sucesso do plano, o aluno precisa dar sempre retorno, o que chamam de 'feedback'. Mesmo que seja por e-mail, como acontece na maioria dos casos. Mas por que optar por um tipo de treinamento tão "frio" no qual você nem sabe o rosto do professor? A prática vai na direção totalmente oposta à idéia do personal trainner, que é pago para ser quase uma sombra.

"Quem me procura é um público de 18 a 55 anos. É um cara destreinado, que quer entrar em forma com um treino regrado e organizado, vai evoluindo. É gente que não gosta de academia", explica o professor de educação física Marcos Paulo Reis, que tem uma empresa de assessoria em São Paulo.

 Críticas

Reis calcula "gerenciar" a vida esportiva de cerca de 800 pessoas espalhadas pelo mundo inteiro. Em sua lista de contatos, há gente em Nova York, no Panamá, além de diversas cidades brasileiras. "O meu negócio é todo on-line. Minha academia tem 100 m² e é o meu escritório. Tem cara que está na Venezuela, nos Estados Unidos. Levam mais a sério porque sabem que não vão ver o treinador nunca", conta Reis.

Apesar do sucesso da idéia – ele diz que faz isso há mais de dez anos – o técnico aponta uma desvantagem. "A correção mecânica e o carinho podem ficar a desejar", diz ele sobre a falta de contato próximo. E é justamente nessa grande lacuna que o presidente da Associação de Treinadores de Corrida de São Paulo, Nelson Evêncio, vê problema. "Eu não faço treinamento on-line em hipótese alguma. Você precisa ver a pessoa correndo, corrigir, motivar", afirma.

Para ele, a idéia é puro "comércio". "Tem que estar de olho. Não é uma receita de bolo. Vejo como um comércio e uma irresponsabilidade", ataca o professor de educação física.

 Ironman

O engenheiro agrônomo Sergio Di Nizo Drago, de 56 anos, pensa diferente. Ele mora em Limeria, no interior de São Paulo, e utiliza as planilhas de Marcos Paulo Reis há 12 anos. Foi por meio delas que treinou para o Ironman, uma das provas mais duras do triathlon. São 4 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km correndo.

"Já se foram 12 largadas de Ironman dentro desse sistema, não acha que vou mudar agora, não?", respondeu o empresário por e-mail. Segundo ele, a distância não é problema. "Quando você se propõe a terminar em boas condições um Ironman, embora sendo amador, tem que ter disciplina para suportar nos treinos. É um amador levado a sério, muito sério", conta.

 Na beira do rio
Não ter uma pista de corrida todo dia virou rotina para o indiano Sunil Tankha, de 37 anos, que aderiu aos "treinos virtuais". Por causa do trabalho como professor universitário e das consultorias que oferece, ele diz viajar muito. Mora em Amsterdam, na Holanda, e treina onde consegue. "Uma vez, em Uganda (África), corri em um aeroporto militar perto do hotel. De repente, consigo correr à beira de um rio, ou em zona rural; depende do lugar", diz Tankha, de passagem pelo Rio de Janeiro.

A caixa de e-mails dele vive cheia com as planilhas que Marcelo Nissembaun passa periodicamente. Os dois se conheceram durante uma escalada no Rio em 2002 e viraram amigos. "Eu preciso levar a sério. Não tendo alguém do lado, você busca sua motivação, cumpre metas e dá o feedback", afirma o indiano, que garantiu ter melhorado sua resistência na hora de subir montanhas por causa da corrida.


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